segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Crônica genial do Dr. Júnior Bonfim: "O préstimo de Prestes".

 

Sendo prestimoso no préstimo de Dr. Júnior Bonfim a Luís Carlos Prestes...

A Língua Portuguesa (sempre bela e culta) tem um adjetivo para algo que é útil, de utilidade, que faz o bem, que muitas características positivas, determinado a servir e melhorar as vidas de todos.
Préstimo.
Por isso, sou prestimoso a genial crônica de Dr. Júnior Bonfim, "O préstimo a Prestes", o Cavaleiro da Esperança e da cidadania, que sempre manteve uma incoerência inquebrantável por aquilo que pensa e defendia sua ideologia marxista de mudança social.
Sendo assim, narra com destalhes o encontro do jovem idealista (Bonfim) com o velho combatente, a pujança vulcânica da maturidade e o fulgor rejuvenescido da maturidade, numa quadra do José Walter.
Um encontro histórico que rendeu um esculpido poema.
Um brado poético pelo conserto do mundo.
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O préstimo de Prestes

A história de Prestes, marcada por grandes dores e arrebatados gestos de amores, é digna de reverência e louvores. Em pleno vigor juvenil, com vinte e sete anos de idade, comandou a terceira maior marcha humana da história do planeta, a Coluna Prestes. Foi exilado. Amargou, durante anos a fio, o isolamento da prisão política.

Mais do que em qualquer outra quadra da existência humana, a atual constitui um tempo histórico que reclama o cuidado com a difusão de elevados valores. Como a terra sedenta por boas sementes para a germinação salutífera, o coração da juventude é um campo aberto ao desenvolvimento de princípios norteadores de vida. Por qual razão, a cada dia, aumenta o número de adolescentes que, em nossas comunas, se lança às águas turvas e perigosas da marginalidade, da delinquência, da criminalidade?!

A razão que vislumbro é a ausência de faróis referenciais, de modelos a seguir, de exemplos a cultuar. Pelas veredas até aqui percorridas, aprendi que, nesta vida, a gente deve se libertar dos “pré-conceitos”, ou seja, dos estereótipos, clichês ou conceitos previamente formados à base, muitas vezes, do desconhecimento. Entendo que devemos construir “pós conceitos”, ou seja, primeiro conhecer, conviver, experienciar e, por fim, emitir um juízo, seja de valor ou desvalor.

Assim, busco cultuar uma abertura de espírito para perscrutar qualquer ideologia e conviver com pessoas que pensam, inclusive, diferente de mim. Por isso, também, inclino-me a um estilo de pensamento que mira os seres sem as lentes embaçadas do patrulhamento ideológico. Sinto-me à vontade, pois, para expressar simpatia por líderes que buscam a correção das injustiças e a construção de um mundo melhor. Considero que, libertos de rótulos, poderemos contribuir para a construção de uma virtuosa civilização, onde as pessoas capitaneiem suas almas e sejam de saudáveis costumes.

Meditando sobre isso, lembrei de um nome em especial: Prestes. A lembrança de sua vigorosa figura me ocorreu mais precisamente no terceiro dia de janeiro, data do seu natalício. A história de Prestes, marcada por grandes dores e arrebatados gestos de amores, é digna de reverência e louvores. Em pleno vigor juvenil, com vinte e sete anos de idade, comandou a terceira maior marcha humana da história do planeta, a Coluna Prestes. Foi exilado. Amargou, durante anos a fio, o isolamento da prisão política. Olga Benário, sua mulher, de origem alemã, após ter dado à luz no pátio de um cárcere, foi decapitada pelos nazistas. Apesar do sacrifício durante toda a vida, manteve a grave dignidade dos grandes, a inquebrantável firmeza de ideias, a serenidade superior de um guerreiro vitorioso. Foi uma torre modelar.

Existem momentos que permanecem vivos, como o fogo ardente ou a água cristalina, no arquivo da nossa memória. Meu primeiro e único encontro com Prestes se insere no panteão desses momentos. Frente a frente, o jovem idealista e o velho combatente, a pujança vulcânica da adolescência e o fulgor rejuvenescido da maturidade. Era o mês de janeiro do ano desperto de 1983. Para o aniversário comemorar, o “Cavaleiro da Esperança” tinha vindo ao Ceará.

Em uma quadra do Conjunto José Walter, em Fortaleza, dezenas de artistas, intelectuais, sindicalistas e militantes populares se reuniram para festejar a vida do Comandante. Acompanhado de alguns amigos da minha terra natal (Chichica e Luisinha Camurça, da Pastoral da Terra; Gabriel e Tarcísia, casal militante do movimento de bairros; e Nery Azevedo, ex-seminarista), assistia às homenagens prestadas por cérebros talentosos como Taiguara e Patativa do Assaré. De repente, um raio de inspiração desceu sobre o estrume da minha mente e esculpi um poema para o grande herói militar e político do Brasil no século passado.

Começava assim: “Prestes Brasileiro, queria que entre os meus lábios e o teu coração se estendesse agora uma ponte invisível – o rio Poty de Crateús – e que sobre essa ponte deslizasse, brilhando, as ternas palavras que ofereço à tua extensão revolucionária!”. Após a leitura dos versos, o legendário Capitão Luís Carlos Prestes levantou-se, olhou-me firmemente na retina, apertou minha mão com energia carinhosa e disse: – Muito obrigado, meu jovem! A figura carismática do homenageado – duro como uma rocha, indiferente à corrosão do tempo – lançou sobre mim um jato de vitalidade.

Emocionado, guardo o prestígio desse préstimo. Jamais seria o mesmo desde então. Aquela emoção calou fundo na minha alma e na minha poesia. Minha alma ficou mais receptiva aos impulsos da Justiça; minha poesia passou a incorporar, também, um brado cortês pelo conserto do mundo.


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