O que me dá maior certeza de ser um estrangeiro nesse trem é saber que são raríssimas as pessoas com capacidade de suportar a sinceridade.
Esquivam-se dela como se esquivam da sua essência.
Criam pra si uma armadura e, no íntimo de sua fraqueza, lapidam cada detalhe, cada relevo, com intuito único de agradar a qualquer desconhecido.
Procuram no olhar alheio aquilo que não querem encontrar nos olhares de seus próximos.
Valorizam demais os zumbidos das moscas da praça pública.
O humanimal, esse ser fraco, é essencialmente alguém desprovido de qualquer autorreconhecimento. Qualquer "meia verdade" cria uma turbulência, uma ânsia de olhar para os próprios botões.
O humanimal é aquele que não quer ir ao campo de batalha. Pra ganhar ou pra perder. Aquele que não consegue enfrentar seu vazio. É um ser que se despreza e tem o pior sentimento de todos: autopiedade.
Mas o tempo é traiçoeiro. Ele vai cortar o rosto com uma navalha. Ele vai enrugar sem respeito. Só o tempo é o seu dono. Se com ele você não aprendeu a se reconhecer como limitado, se não entendeu que ser forte é ser sensível e ético, ele não vai perdoar.
Seu vazio vai escancarar as portas da consciência.
Então, tudo o que se coloca hoje como uma referência de socialmente forte é uma máscara liquefeita em hipocrisia. Os seres fortes estão fora dos holofotes. Fora dessa vaidade desvairada.
Dr. João Ribeiro
é médico cirurgião e diretor clínico do Hospital Municipal José Gonçalves Rosa.
é médico cirurgião e diretor clínico do Hospital Municipal José Gonçalves Rosa.
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