quinta-feira, 2 de abril de 2026

Juarez Leitão, Crônica de Júnior Bonfim sobre o intelectual-imortal, é algo divino e genial.

Esqueça tudo o que se escreveu sobre Juarez Leitão: Crônica de Júnior Bonfim é suficiente.

Fantástica. Maravilhosa. Sensacional.

Crônica luminar e divina de Júnior Bonfim sobre o intelectual e imortal Juarez Leitão, em especial seu aniversário.

O filho fausto-farto de Dona Maria e de João Belo, ambos anjos celestiais.

O PPP. Portentoso predestinado, páramo condor do altiplano da Polis, pássaro poético.

Ressuscitado ainda no ventre pela medicina popular.

O político de várias terras.

Empilhador de estórias e de histórias.

Eis, Juarez Leitão: cujo perfil escrito de maneira genial por Bonfim.

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JUAREZ LEITÃO
Sapato, calça e cinto pretos. Camisa em um tom vibrante de vermelho, o rubi. O preto, símbolo de elegância e sofisticação; o rubi, uma das gemas mais valorizadas e desejadas, ícone de dureza e beleza, signo de riqueza e paixão. Eis como se vestiu Juarez Leitão para celebrar o natalício aos onze dias do mês de março de dois mil e vinte e seis. Escolheu o Café Java, terreiro de intelectuais, ao lado da longeva Academia Cearense de Letras.
Farto em amigos, fausto no preço e apreço convivencial, lá estava ele: Juarez Fernandes Leitão, o filho de Maria Soares Cavalcante Leitão, a DonaMaria (sic), e de João Belo, mais precisamente João Fernandes de Oliveira, homônimo do contratador de diamantes que viveu um tórrido romance com a lendária Chica da Silva.
Juarez Leitão é um ppp: um portentoso predestinado, um páramo da pólis e um pássaro poético. Na primeira sentença que recebeu, com cinco meses de vida e versejando no ventre da mãe, sentiu o vestígio do prodígio. Estava condenado ao milagre de viver.
Grávida de cinco meses, em plena fazenda Barro Vermelho, no interior de Novo Oriente, a mãe do futuro poeta sofreu uma cabeçada violenta de um carneiro. O esposo, João Belo, providenciou sua remoção urgente para Crateús. Era dramático, assaz dramático o estado de saúde da genitora de Juarez. Desfalecida, sangrava muito. Nas palavras do próprio Juarez:
“Na nave uterina, estava eu sofrendo a primeira ameaça de morte, antes mesmo de ver o mundo. O doutor Moura Fé foi muito claro em seu diagnóstico: A situação era grave, muito grave. Poderia salvar a mulher, mas tinha que extrair o feto, aos pedaços. Era a minha condenação, decisiva e peremptória.” Foi salvo pela enfermeira Cotinha, Maria Soares Alcanfor, que “a troco de óleo de rícino, cafiaspirina, aguardente alemã e massagens no ventre, praticamente ressuscitou DonaMaria e fez a criança voltar a mexer em seu ventre”. Era o sinal, solene e fino, do destino. Uma mensagem radiosa, prenúncio de uma existência portentosa.
O filho do onze de março, aos onze anos de vida, presenciou os onze gritos da morte: seu pai teve a vida ceifada em pleno mercado da urbe natal. Após esse episódio doloroso, Juarez foi entregue à tutoria de um tio: o padre Leitão, vigário de Nova Russas. E o cura da ribeira do Curtume conduziu o jovem sobrinho ao Seminário de Sobral, ao prédio solene da Betânia, a fim de encontrar o mundo. Da margem do Acaraú, partiu para a “loira desposada do sol”. Na capital, cursou Direito. Bacharelou-se em História e Filosofia. Abraçou o magistério e conheceu a aura popularis. Foi eleito e reeleito representante do povo de Fortaleza, ocupando o púlpito da política como um páramo da polis.
Em 1986, candidato a Deputado, protagonizou uma cena engraçada. A caravana de postulantes percorria os municípios da região de Crateús. Um ajuste prévio indicava a preferência no uso da palavra: os mais votados e os filhos do lugar. Em Independência, arguiu: quando eu nasci, Novo Oriente pertencia a Independência. E falou. Em Novo Oriente, ninguém podia contestar, havia nascido lá. Falou novamente. Em Crateús, fez o alerta: fui batizado em Crateús. Tenho Certidão para comprovar. Falou mais uma vez. Em Nova Russas, disse: fui criado nesta cidade, pelo Padre Leitão. Todo mundo acha que sou filho daqui. E, mais uma vez, usou o microfone... O destino seguinte era Poranga, terra do então Deputado Eufrasino Neto. Na saída de Nova Russas, Eufrasino segurou o braço de Juarez e o proibiu de continuar: À Poranga você não vai. Eu já vi filho ter mais de um pai, mas várias mães, nunca... ​
Juarez é um dos maiores empilhadores de histórias e estórias do Ceará, um aparentado da alegria, proseador da poesia. “No peito tem porteiras, aberto às emoções, tem janeiros em festa, aboios e canções.” Dispensa filtros para exaltar amigos e desbancar desafetos. Centraliza as rodas de conversa, em especial quando está nas confrarias. Avança inteiro, espirituoso e fagueiro para as oito décadas. Que percorra o budista e nobre caminho óctuplo!
(Júnior Bonfim)


 

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