domingo, 23 de agosto de 2026

Genial Crônica Maçônica de Júnior Bonfim.

 Júnior Bonfim, o eco maçônico libertário e som invisível real.

Tudo isso na melhor crônica maçonica de todos os tempos. Júnior Bonfim, com seus conhecimentos globais, escreveu sobre aspectos que ninguém havia escrito antes da Maçonaria, até personalizando em Gonçalves Ledo a conversão de Dom Pedro I num maçom libertário e proclamador da Independência do Brasil.

 Cronista de exaltação dos ideais maçônicos, explicando que o compasso e o esquadro retificam e corrigem a alma humana, vai adiante, na questão explicativa do antigo som. De que, mesmo secreta de um som invisível que não eco, o som da maçonaria é real, concreto e sábio.

Leia com muita atenção maçônica.

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O DIA DO MAÇOM E O ANTIGO SOM
“Quando a raiva dos partidos começa a dividir uma nação, a verdade, sólido interesse dos povos, confunde-se e perde-se na luta porfiada das paixões que então se desencadeiam. Aqueles mesmos que têm a fortuna de lobrigá-la, não poucas vezes são obrigados a calar-se para não serem vítimas da maledicência, da intriga e do ódio. Cada um partido começa a encarar os objetos pela cor das suas paixões; com todo o empenho procura fazer prosélitos e apoiar-se na opinião; apresenta sempre os seus próprios interesses e sentimentos, como interesse e sentimento geral; e, na falta de razões, recorre à impostura.” O texto acima foi publicado há 204 anos no jornal Reverbero Constitucional Fluminense, mais precisamente em março de 1822. Seu autor: Joaquim Gonçalves Ledo, um modesto político e jornalista que combateu os interesses dinásticos portugueses e foi um entusiasta do movimento pela independência do Brasil na intimidade da Loja Maçônica Comércio e Artes.
Gonçalves Ledo esteve por trás do “Dia do Fico”. Viveu sem ambicionar cargos, títulos ou honrarias. Foi um pedreiro livre que erigiu templos à virtude e cavou masmorras ao vício. A história reconhece sua grande importância sendo apontado por pesquisadores, como o grande articulador desse movimento, articulação esta conduzida e feita na intimidade da Loja Comércio e Artes.
20 de agosto se tornou, no Brasil, o Dia do Maçom, porque no vigésimo dia desse augusto mês, no ano libertador de 1822, a Independência do Brasil foi precocemente proclamada sob a aura de um templo maçônico. Em uma sessão conjunta das Lojas “Comércio e Artes”, “União e Tranquilidade” e “Esperança de Niterói”, Gonçalves Ledo, em um enérgico discurso profético, dirigiu-se ao então hesitante Príncipe D. Pedro e instigou: “O Brasil, no meio das nações independentes, e que falam com exemplo de felicidade, não pode conservar-se colonialmente sujeito a uma nação remota e pequena, sem forças para defendê-lo e ainda para conquistá-lo. As nações do Universo têm os olhos sobre nós, brasileiros, e sobre ti, Príncipe! Cumpre aparecer entre elas como rebeldes ou como homens livres e dignos de o ser. Tu já conheces os bens e os males que te esperam e à tua posteridade. Queres ou não queres? Resolve, Senhor!”
As sílabas de fogo proferidas naquela Loja Maçônica impactaram a alma do jovem monarca e o impulsionaram a poucos dias depois, às margens plácidas do Ipiranga soltar o brado retumbante e fazer o sol da liberdade brilhar no céu da pátria naquele instante. Esse é um exemplo de como a história da Maçonaria se confunde com a história da própria modernidade. Ela esteve presente nos bastidores das independências americanas e latino-americanas, na formulação dos direitos do homem, na construção de repúblicas que prometeram — nem sempre cumpriram, mas prometeram — a dignidade como fundamento político.
Os ideais que animam a Ordem são conhecidos: liberdade, igualdade, fraternidade. Não como lemas políticos postos em bandeiras e depois traídos pelos tribunos, mas como princípios existenciais. Vividos antes de serem proclamados, encarnados antes de serem defendidos. Escola iniciática e mística, ela tem na simbologia sua mais afinada melodia. Nela, por exemplo, o esquadro e o compasso não são enfeites. São instrumentos de medição da alma. O esquadro retifica; o compasso circunscreve. Entre a retidão e a abertura, entre o rigor e a amplitude, o maçom aprende a talhar a própria pedra bruta que é — como todos somos — antes de se tornar aquilo que pode vir a ser.
Diz-se que a Maçonaria é secreta. Au contraire, é discreta. Aquela porta discreta (sempre aberta para quem sabe bater, a fachada sem letreiro, o templo que não se anuncia emite a pulsação de um misterioso som antigo, como quem passa diante de um templo cuja liturgia se celebra em língua que não se ouve, mas se intui. Vem daí, talvez, a incompreensão que cerca a Ordem no mundo contemporâneo. Vivemos sob o império da visibilidade: o que não se mostra, não existe; o que não se explica, suspeita-se. Uma instituição que escolhe o silêncio como método, o símbolo como linguagem e o ritual como pedagogia parecerá, inevitavelmente, estranha a quem foi educado para exigir de tudo uma explicação imediata e de todos uma exposição pública.
Esse som clássico – misterioso e imorredouro como tudo que é clássico - alcança toda a existência humana: o que é essencial não precisa gritar para ser ouvido; o que é profundo não precisa se expor para ser real.
(Júnior Bonfim)


 
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