Júnior Bonfim celebra o Dia dos Pais e seus erros...
Mesmo
que seja um hiato mental, ocorra uma cancela alma na sua genial
carpintaria literária como bem disse, há que se dizer e comentam, sim,
no Dia dos Pais, os erros dos pais, como é o sentido geral da belíssima
crônica paterna do Dr. Júnior Bonfim.
Recorrendo a expressivos vultos e renomados intelectuais, cita vários exemplos de que como os pais erram.
Vale a pena ler do começo ao fim.
Não sem antes, porém, tomar a bênção ao seu Pai.
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DIA DOS PAIS E DOS ERROS DE PAI
Vez
por outra, quando me sento para o exercício da escrita dessas crônicas,
sinto como que uma cancela na alma, um aroma travoso na língua, uma
barra de obstáculo à frente da corrida elaborativa. O tema irrompe como
um relâmpago, porém o corpo/conteúdo fica invisível. Sei que esse hiato
mental há que ser creditado à ausência da sintonia essencial, aquela que
nos faz caudatários das águas barrentas ou claras do aprendizado
superior.
Hoje
senti um pouco isso. Pensei em escrever algo a propósito do Dia dos
Pais, ocorrido no segundo domingo de agosto. Mas... O que dizer? Há um
universo de loas, um oceano de mensagens que exaltam o esplendor
realizacional e os efeitos prazerosos da paternidade. O que
acrescentar?!
Imaginei,
então, além de citar esses búzios da mandala humanística espalhados nas
praias da sabedoria universal, juntar umas breves sílabas de
autoavaliação e enfatizar “erros de pai”. A professora que amo me
ensinou que: “Nada é nosso, nada temos, nada nos pertence!/ Mesmo
quando, por nossas mãos,/ Brotam ramos de estrelas,/ Rosas de ternura,/
Pétalas de candura,/ Somos apenas instrumentos musicais/ Regidos por um
Artista Superior!”
Um
dos nossos maiores erros é o egoísmo: acharmos que somos donos dos
nossos filhos. Não, eles não são propriedade nossa. Gibran Khalil
Gibran, há cerca de um século, ensinava que “Vossos filhos não são
vossos filhos. São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm
através de vós, mas não de vós. E, embora vivam convosco, a vós não
pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
pois eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas
não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não
podeis visitar nem mesmo em sonho.”
Somos,
sempre e a cada instante de iluminação, veículos transportadores. Um
texto primoroso, um desenho mágico, uma formidável coluna de
arquitetura, uma admirável obra de arte ou qualquer outra engenhosidade
que germine no solo fértil da mente humana, é sempre resultado da
inspiração Superior agindo através de nós.
Filhos.
Com os Filhos, também e principalmente, ocorre esse fenômeno
matrimonial místico de sol e lua. Nenhum filho é gerado a partir da
exclusividade existencial de um pai ou de uma mãe isoladamente. Filho é
produto de um acasalamento, de uma união, de um coito – mesmo fugaz ou,
em certos casos, contra a vontade de uma das partes – mas sempre de um
imbricamento qualquer, ainda que laboratorial. A melhor imagem para essa
relação genitores e filhos é a do leito de um rio. O leito não é a
nascente do rio, tampouco sua foz. Não é o inicio, muito menos o fim. O
leito é o sulco, o canal, o rego, o córrego, o móvel, a superfície sobre
a qual a água se estende para cumprir um roteiro, para seguir o
itinerário do mar. A grande tentação nossa é imaginar que somos a fonte
ou desaguadouro dos filhos.
Artur
da Távola escreveu que “ser pai é atingir o máximo de angústia no
máximo de silêncio. O máximo de convivência no máximo de solidão. É,
enfim, colher a vitória exatamente quando percebe que o filho a quem
ajudou a crescer já, dele, não necessita para viver. É quem se anula na
obra que realizou e sorri, sereno, por tudo haver feito para deixar de
ser importante”.
José,
o artesão-carpinteiro casado com Maria, escolhido patrono da passagem
terrena de um Filho chamado Jesus, é indiscutivelmente o mais modelar
exemplo daquilo que o Artur da Távola partilhou no banquete da reflexão.
A vida de José foi um portal aberto à luz dos sonhos e, ao mesmo tempo,
uma sombra discreta no mundo. Diferentemente de nós, pais da
atualidade, que apreciamos o exibicionismo (seja nosso, seja dos
filhos), José cultuava o anonimato. Era justo nas ações, trabalhador no
quotidiano. Assumiu a gravidez de uma mulher sem expô-la à censura
coletiva, pois tinha consciência da sua condição instrumental. Enfrentou
a perseguição de Herodes, o poderoso de plantão, com serenidade e sem
alardes. Vivia em perfeita vinculação com o Inefável. Apontou para o
Filho a montanha ética e a planície profética. E se recolheu à gruta do
anonimato.
Alguns
séculos depois, um escritor português - também dito José e uma espécie
de mago ou sara mago na carpintaria das letras - esculpiu uma moldura
extremamente elucidativa da condição paterna. Embora se proclamasse
agnóstico, José Saramago foi, sem o saber ou verbalizar, um fio elétrico
divino que energizou de humanismo a literatura universal. Soou
extremamente feliz quando utilizou o instituto do ‘empréstimo’ para se
referir à figura do filho. Disse ele: “Filho é um ser que nos foi
emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós
mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores
exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! Ser pai ou mãe é o
maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o
tipo de dor, principalmente o da incerteza de agir corretamente e do
medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo.”
(Júnior Bonfim)

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